Seguidores

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Para os meus cinquenta anos


Para os meus cinquenta anos

Tenho que dizer-lhes uma coisa
agora que vocês partiram para além das montanhas
deixando-me para trás com os meus sessenta e setenta, sem esperança de
que retornem.
Ei, vocês, que pareciam pontuar o fim da vida, quem jamais poderia
imaginar que vocês queimariam
com tanta lubricidade assim? finalizei em vocês
um ou dois assuntos pendentes há tempos. Vocês foram um tempo de plenitude
e devastação. Meu casamento havia terminado.
Em vocês eu me vi buscando uma saída que não fosse ao encontro da
não-existência.
Eu pensei:"tudo acabou". Vocês gritaram: "Estamos aqui!"
Vocês pareciam viajar até mim num fluxo, por conta própria, sem guia
ou horários de trens.
Como a flor da idade, eu os perdi. Vocês pareciam uma imperfeição
feita de perfeições
desconhecidas entre si. Como isso podia acontecer? eu pensava.
Ou o que deveria significar, exatamente, ter cinquenta e sete anos?
Eu queria me sentir tomado pelo desejo a todo instante.
Agora vocês me parecem jovens demais para mim.
E, com vocês, como das outras vezes,
eu pensei que um ano duraria para sempre.
"Fizemos o melhor possível. Resistimos dez anos completos.
Agora somos responsáveis pela década de outra pessoa
e não temos tempo para falar com você, o que é uma pena,
já que não poderemos mais voltar." Meus cinquenta anos! Responda-me
apenas uma coisa!
Vocês foram o esplendor ou não mais que mais uma década?
"Nenhum e os dois" .Expliquem-se! "Não
há tempo. Adeus!"
Kenneth Koch
*****
Esse maravilhoso poema aborda, de maneira maravilhosa,uma conversa ao pé do ouvido, entre o poeta e seus cinquenta anos.
Uma reflexão para quem já chegou lá ou para quem está prestes a chegar, por que não?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

dúvidas



Ou isto ou aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles

domingo, 25 de setembro de 2011

Nos cinquenta anos




Quarto em desordem




Na curva perigosa dos cinqüenta


derrapei neste amor. Que dor! que pétala


sensível e secreta me atormenta


e me provoca à síntese da flor



que não sabe como é feita: amor


na quinta-essência da palavra, e mudo


de natural silêncio já não cabe


em tanto gesto de colher e amar




a nuvem que de ambígua se dilui


nesse objeto mais vago do que nuvem


e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo


verdade tão final, sede tão vária


a esse cavalo solto pela cama


a passear o peito de quem ama.



Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

caminho




"Respeta, defiende, ama y sirve a la



vida, a toda vida humana!



Sólo siguiendo este camino encontrarás



justicia, desarrollo, libertad verdadera,



paz y felicidad."



Juan Pablo II, E.V.5

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Quintanuando...


Mais para você, querido amigo Andradarte:


******

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Quintanando


Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste
e belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
faço barcos de papel!

sábado, 17 de setembro de 2011

quero silêncio

Que pare agora
esse barulho dentro da noite
que me impede de dormir.
Lá fora o vento me ouviu
deu-me o silêncio.
Mas a orquestra dos homens
continuou como um tambor
na floresta cheio de poder
ecoando seu grito
aclamando as armas e os fantasmas
para a guerra.
Que pare tudo,
menos meu coração que anseia por sossego...
menos o canto dos pássaros na minha janela...
(pv)