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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Não há vagas...


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar

******

Se o poeta pudesse colocar tudo no poema que está acontecendo nesse país, aí que ia feder mesmo...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nem aí...


Nem aí...


Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema
Ferreira Gullar
******
E, digo-vos:
"Acautelai-vos para que o vosso coração nunca fique sobrecarregado
com as consequências e preocupações deste mundo."
Lc 21. 34

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Mais Gullar


Falar

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma

******

Off price


Que a sorte me livre do mercado

e que me deixe

continuar fazendo (sem o saber)

fora de esquema

meu poema

inesperado

e que eu possa

cada vez mais desaprender

de pensar o pensado

e assim poder

reinventar o certo pelo errado
****
Esse é Ferreira Gullar. Poeta maranhense que ganhou o Prêmio Camões. Aqui vão mais dois poemas seus, para você Baby que não o conhecia.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Gullar


Vivo a pré-história de mim
por pouco pouco
eu era eu
José de Ribamar Ferreira Gullar
não deu
o Gullar que bastasse
não nasceu.


*****


Não preciso nem dizer o nome do autor, ele próprio já disse.
Descobri Gullar há bastante tempo, um dos maiores poetas de nossa literatura. Hoje, ele completa 80 anos, e é justíssima essa homenagem.
Transcrevo aqui com muito orgulho o primeiro poema que me seduziu. Exatamente, porque insinua um conflito: onde estou, para onde vou, quem sou eu, sou isso ou aquilo? Os nossos paradoxos, quem não os têm? Mas você, Gullar , tenha certeza de que é feito de muitas partes. Você é múltiplo.


Traduzir-se


Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo


Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão


Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira


Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem


Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?

Ferreira Gullar


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um instante gostoso

Recebi este selinho do blog recomeçar e estou repassando-o para os seguintes blogs:


http://www.valvesta.blogspot.com/

http://www.dolcealgodao.blogspot.com/

http://www.flordavida.blogspot.com/

http://www.acadainstante.blogspot.com/

http://www.algodaodoce.blogspot.com/

http://www.apenaspalavras.blogspot.com/

http://www.ciodalua.blogspot.com/

http://www.blogdajoaninha.blogspot.com/

http://www.cafecomleitepaocommanteiga.blogspot.com/



As regras desse selinho são: falar 9 coisas sobre nós e repassar para 9 blogs amigos, o que eu já fiz acima. Agora sobre mim, o que tenho a falar é que:


. Sou uma pessoa muito romântica.

. Adoro cinema, uma boa leitura e muita poesia.

. Sou leonina de temperamento forte, cuido do que é meu com muita garra.

. Sou casada há 36 anos com meu primeiro namorado.

. Moro em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro, onde o friozinho é bem gostoso.

. Tenho uma filha formada em Direito, um filho fisioterapeuta e uma netinha maravilhosa...uma família abençoada por Deus.

. Sou formada em Letras com pós-graduação em Gestão escolar.

. Trabalhei 42 anos como professora de Português, minha paixão. Hoje, estou aposentada, mas um pouco decepcionada com a educação do nosso país.

. O que me deixa muito enfesada é ver a injustiça de mãos dadas com a corrupção.





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Um instante


"Aqui me tenho

Como não me conheço

nem me quis

Sem começo

nem fim
aqui me tenho

sem mim

nada lembro

nem sei

à luz presente

sou apenas um bicho

transparente"

****

Ferreira Gullar