
Vivo a pré-história de mim
por pouco pouco
eu era eu
José de Ribamar Ferreira Gullar
não deu
o Gullar que bastasse
não nasceu.
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Não preciso nem dizer o nome do autor, ele próprio já disse.
Descobri Gullar há bastante tempo, um dos maiores poetas de nossa literatura. Hoje, ele completa 80 anos, e é justíssima essa homenagem.
Transcrevo aqui com muito orgulho o primeiro poema que me seduziu. Exatamente, porque insinua um conflito: onde estou, para onde vou, quem sou eu, sou isso ou aquilo? Os nossos paradoxos, quem não os têm? Mas você, Gullar , tenha certeza de que é feito de muitas partes. Você é múltiplo.
Traduzir-se
Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?
Ferreira Gullar